Não à castração

por Cybele Russi de Carvalho
Mais uma vez na vida, os inocentes pagam o pato. E desta vez, os escolhidos foram os cães "ferozes". Mas, antes de mais nada, só uma perguntinha: o que seria um cão feroz? Desde que o homem existe na versão em que o conhecemos hoje, como ser social, criador de conhecimento e cultura, o cão tem sido seu leal e fiel companheiro e guardião.

Na época das cavernas, quando cães e homens eram ainda completamente selvagens, ambos já compartilhavam a comida, o lazer, a caça, o espaço e a guarda da caverna . E desde então, homem e cão têm sido companheiros absolutos. E nesse sentido, nunca houve restrição de raça, cor, credo, tamanho, idade, sexo, origem, procedência, religião, cultura, preferência sexual, ou qualquer outro tipo de discriminação, tão comum entre seres humanos. Os homens adotam os cães como eles são, sem nenhum atestado de identidade ou certificado de conhecimento, e os cães adoram e adotam o homem, seja ele como for, sem nenhuma carta de referência de sua vida pregressa ou atestado de idoneidade moral, e o elegem para seu amigo para o resto de seus dias. ( Quem nunca viu a clássica cena do mendigo que não tem o que comer dividindo sua cachaça com seu cão à beira da sarjeta? Quem não assistiu ao funeral do Presidente Mitterand, acompanhado por seu cão até o fechamento do túmulo?) É a isto que se dá o nome de amizade incondicional e absoluta.

Quando um cão vem viver em nossa companhia, nós somos tão estranhos para ele quanto ele o é para nós. E inúmeras vezes já me perguntei o quanto eles não nos devem achar cheios de manias e esquisitices. Entretanto, jamais em toda vida, me ocorreu pensar num cão como um ser feroz. O mesmo, entretanto, já não poderia dizer em relação aos homens. Já vi "seres humanos" praticarem atos de tal selvageria, crueldade e ferocidade contra seus próprios semelhantes, que ainda hoje me questiono se fazem jus à classificação biológica que têm.

Quando a gente vê um pai ou uma mãe surrarem seu filho até à hospitalização, a gente se pergunta o que é um ser feroz. E no entanto, nunca ninguém pensou em criar uma lei que impedisse esses homens e mulheres de continuar procriando. Pelo contrário, eles continuam infestando o mundo com sua prole magnifíca, cujos melhores exemplares poderiam ser Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco, Francisco, o maníaco do parque, e tantos outros seres humanos dóceis e afáveis, tão legítimos representantes da espécie humana, como eu ou você.

Sim, é verdade. Todos os seres vivos são produto do seu meio e da forma como são criados. Sejam eles racionais ou irracionais, animais ou vegetais. Experimente deixar a mais bela orquídea do jardim fechada numa casa sem luz e sem água durante uma semana e depois veja em quê ela se transfrmou. Compare-a depois com outra orquídea que foi regada, adubada, teve luz e calor na quantidade certa. O mesmo acontece com os animais e com as crianças. Ninguém no mundo nasce Fernandinho Beira-Mar ou Elias Maluco. Eles são transformados em. Assim como nenhum cão nasce Pitbull ou Rotweiller.

Mas, se agente quiser, a coisa mais fácil do mundo é transformar um Poodle numa fera indomável. Tudo depende do que é que se faz com ele. A intenção não é, nem deve ser, castrar homens ou animais, mas educá-los, para que possam continuar convivendo harmonicamente, como sempre foi. E se formos pensar bem a respeito, nunca a amizade, o companheirismo e a lealdade do cão foram tão imprescindíveis para o homem como hoje, quando a solidão, a angústia e o medo, e o Elias Maluco correm soltos por aí.

Como já dizia o nosso bom mestre Aristóteles, lá nos tempos de antigamente, "Eduquem-se as crianças para que não se tenha que punir os homens." E eu diria mais: "Eduquem-se as crianças e os cães, para que não se tenha que castrá-los no futuro".

Cybele Russi de Carvalho é professora e psicopedagoga.